24/11/2009

UMA LIÇÃO!!!


Na semana passada, o vice-presidente da República,
José Alencar, de 77 anos, deu início a mais uma batalha
contra o câncer. É o 11º tratamento ao qual se submete:

*Desde quando o senhor sabe que, do ponto de vista
médico, sua doença é incurável ?
JA: Os médicos chegaram a essa conclusão há uns dois
anos e logo me contaram. E não poderia ser diferente,
pois sempre pedi para estar plenamente informado.
A informação me tranquiliza. Ela me dá armas para lutar.
Sinto a obrigação de ser absolutamente transparente
quando me refiro à doença em público, ninguém tem
nada a ver com o câncer do José Alencar, mas com o
câncer do vice-presidente, sim. Um homem público
com cargo eletivo não se pertence.

*O senhor costuma usar o futebol como metáfora para
explicar a sua luta contra a doença. Certa vez, disse que
estava ganhando de 1 a 0. De outra, que estava empatado.
E, agora, qual é o placar ?
JA: Olha, depois de todas as cirurgias pelas quais passei
nos últimos anos, agora me sinto debilitado para viver o
momento mais prazeroso de uma partida: vibrar quando
faço um gol. Não tenho mais forças para subir no
alambrado e festejar.

*Como a doença alterou a sua rotina ?
JA: Mineiro costuma avaliar uma determinada situação
dizendo que "o trem está bom ou ruim". O trem está
ficando feio para o meu lado. Minha vida começou a
mudar nos últimos meses. Ando cansado.
O tratamento que eu fiz nos Estados Unidos me deu
essa canseira. Ando um pouco e já me canso. Outro
fato que mudou drasticamente minha rotina foi a
colostomia* (desvio do intestino para uma saída
aberta na lateral da barriga, onde são colocadas
bolsas plásticas), herança da última cirurgia, em
julho. Faço o máximo de esforço para trabalhar
normalmente. O trabalho me dá a sensação de
cumprir com meudever. Mas, às vezes, preciso de ajuda.
Tenho a minha mulher, Mariza, e a Jaciara (enfermeira da
Presidência da República) para me auxiliarem com a
colostomia. Quando, por algum motivo, elas não podem
me acompanhar, recorro a outros dois enfermeiros, o
Márcio e o Dirceu. Sou atendido por eles no próprio
gabinete. Se estou em uma reunião, por exemplo, digo
que vou ao banheiro, chamo um deles e o que tem de
ser feito é feito e pronto. Sem drama nenhum.

*O senhor não passa por momentos de angústia ?
JA: Você deveria me perguntar se eu sei o que é angústia.
Eu lhe responderia o seguinte: desconheço esse sentimento.
Nunca tive isso. Desde pequeno sou assim, e não é a
doença que vai mudar isso..

*O agravamento da doença lhe trouxe algum tipo de reflexão ?
JA: A doença me ensinou a ser mais humilde.
Especialmente, depois da colostomia.
A todo momento, peço a Deus para me conceder a graça
da humildade. E Ele tem sido generoso comigo. Eu precisava
disso em minha vida. Sempre fui um atrevido. Se não o fosse,
não teria construído o que construí e não teria entrado na
política.

*É penoso para o senhor praticar a humildade ?
JA: Não, porque a humildade se desenvolve naturalmente
no sofrimento. Sou obrigado a me adaptar a uma
realidade em que dependo de outras pessoas para
executar tarefas básicas. Pouco adianta eu ficar nervoso com determinadas limitações. Uma das lições da humildade
foi perceber que existem pessoas muito mais elevadas do
que eu, como os profissionais de saúde que cuidam de
mim. Isso vale tanto para os médicos Paulo Hoff, Roberto
Kalil, Raul Cutait e Miguel Srougi quanto para os
enfermeiros e auxiliares de enfermagem anônimos
que me assistem. Cheguei à conclusão de que o que eu faço
profissionalmente tem menos importância do que o que
eles fazem. Isso porque meu trabalho quase não tem efeito
direto sobre o próximo. Pensando bem, o sofrimento é
enriquecedor.

*Essa sua consideração não seria uma forma de se preparar
para a morte ?
JA: Provavelmente, sim. Quando eu era menino, tinha uma
professora que repetia a seguinte oração:
"Livrai-nos da morte repentina". O que significa isso?
Significa que a morte consciente é melhor do que a repentina.
Ela nos dá a oportunidade de refletir.

*O senhor tem medo da morte ?
JA: Estou preparado para a morte como nunca estive
nos últimos tempos. A morte para mim hoje seria um
prêmio. Tornei-me uma pessoa muito melhor. Isso não
significa que tenha desistido de lutar pela vida. A luta é
um princípio cristão, inclusive. Vivo dia após dia de forma
plena. Até porque nem o melhor médico do mundo é
capaz de prever o dia da morte de seu paciente. Isso cabe
a Deus, exclusivamente.


*Se recebesse a notícia de que foi curado, o que faria primeiro ?
JA: Abraçaria minha espôsa , Mariza e diria: "Muito obrigado
por ter cuidado tão bem de mim".

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