- Fiquei decepcionada. Não gostei dos retratos.
Esperava mais. Saí com cara de velha.
A filha, espantada com minha afirmação, num
tom de deboche típico de pré-adolescente, me
perguntou:
- Mãe, 50 te diz alguma coisa a respeito disso?
Na idade dela, eu tinha uma visão muito
semelhante. Achava todo mundo com mais de 30
muito velho.
Hoje, relendo os fatos, vejo que me enganei.
Perdi algumas pessoas muito queridas nessa faixa
de idade. Eu, adolescente, me consolava
pensando que a pessoa já estava mesmo meio
velhinha, no fim da vida, era assim mesmo.
Quando, ano passado, cheguei aos 50, senti o frio
dos que foram cedo muito perto de mim. Me
olhando no espelho retrovisor, outro dia, vi os
olhos do meu pai. Então, aqueles que foram cedo,
eles eram novinhos também? Ou eu é que não sou mais?
E 50 é velha? Como assim? Eu me sinto tão
cheia de ânimo, de disposição, de joie de vivre!
Quero cantar mesmo desafinado, dançar, rir.
Para a filha adolescente, eu pago mico. Não pode.
Não pode? Quem é velha? Eu ou ela? Qual a
proposta, morrer em vida?
Já me deparei com essas questões inúmeras
vezes no consultório. Pessoas que se censuravam
por ainda terem sede de uma vida que, imaginavam,
não lhes cabia mais. Inseguras, incertas se podiam
ainda ou não. Se ficava feio. Seria ridículo?
E o que as pessoas iriam dizer?
A vida tem o tamanho que a gente dá. Ela pode
ser pp ou GG. Se, por medo do olhar alheio,
restringimos nossa área de lazer, o que será
de nós?
O que é ser velha? O que uma velha pode ou não
fazer? Poucas questões são tão subjetivas quanto
esta.
Começei, lá pelos 40, a ter dificuldade de enxergar
bem de perto. Agora, de longe, a coisa também já
não funciona mais. Vista cansada. Está cansada de
que, gente? Eu aqui toda animada, tanta coisa para
ver ainda, não cansa não. Vamos lá.
Reconheço que o corpo não é mais o mesmo.
A visão deu defeito. O cabelo mudou de cor.
A tireoide e rateou. Nem vou falar do resto. Mas,
só passa por isso quem não morre cedo. Então é l
ucro. A gente vai fazendo umas gambiarras, e
segue.
O tempo que passa, dá uma desgastada básica
aqui e ali. Mas, traz a paz do ensinamento. A
leveza de quem aprendeu que tudo acaba tendo
um jeito. A satisfação com a felicidade, não
perfeita, mas possível.
Uma falta de cor no cabelo, uns defeitos aqui, uma
enrugada ali. Se eu fosse móvel, iam dizer que era
pátina e me amar!
Se eu fosse roupa, assim, com cara de muito usada,
ia custar uma fortuna. Seria exposta na vitrine, para
acirrar o desejo dos consumidores.
Em gente, não vale nada? São minhas marcas,
desgaste natural da quilometragem percorrida.
Estão ali para mostrar que eu vivi. Como o vinho,
agora mais velha, apurei o sabor. A garrafa, está
meio desgastada, o tempo deixa suas digitais. Mas,
lapida o conteúdo. Que no total, agora desce mais
suave.
Quer saber de uma coisa? Eu não sou velha coisa nenhuma.
Eu sou vintage!