16/01/2011

O que as empresas procuram para contratar.



Felipe Redodndo

Quem começou a trabalhar no século passado ouviu falar muito da necessidade de dominar um terceiro idioma, fazer pós-graduação ou comprovar experiência. Quem chega ao mercado de trabalho agora depara com exigências adicionais bem mais abstratas. Os jovens precisam ter a "atitude correta", seja lá o que signifique isso. Para complicar, enfrentam uma impressão difundida pelo mercado de trabalho, justa ou injustamente, de que têm ambição demais e paciência de menos. Uma pesquisa feita pela consultoria alemã Trendence em 20 países (publicada com exclusividade por ÉPOCA) oferece um panorama mais detalhado do que as companhias querem do jovem.

Na maioria dos países, o fator "personalidade" é considerado mais importante que "competências" (saber prático) e "conhecimento" (teórico). O Brasil é o terceiro da lista que mais valoriza a personalidade. Três economias gigantes e dinâmicas, Estados Unidos, China e Índia, destoam das demais. Dão prioridade mesmo é para a boa e velha competência.

As grandes empresas brasileiras, de acordo com o estudo, buscam jovens flexíveis (para assumir diferentes papéis numa organização, não necessariamente ao mesmo tempo), capazes de liderar e decidir (dentro de seu raio de atuação), com facilidade para atuar em equipe, hábeis em análise (para entender cenários amplos), empreendedores (para criar e abraçar projetos) e com "integridade pessoal e ética forte". Essas foram as mais mencionadas entre 19 características que poderiam contribuir para o sucesso de um recém-formado numa companhia.

O clamor por ética se destacou também entre companhias da África do Sul, do México e da Turquia, mas ela foi quase ignorada em nações com maior tradição de respeito à lei como Alemanha, Bélgica e Holanda. "Em alguns países, a ética é assumida como padrão, nem se precisa falar a respeito. Em outros, como o Brasil, existe o medo da malandragem", diz o consultor Carlos Eduardo Dias, diretor da Asap, especializada em organização de processos de estágio. Os recrutadores brasileiros consideraram menos relevantes entusiasmo, pensamento positivo, independência, bom-senso e atenção aos detalhes.

É fácil entender a busca das companhias por profissionais flexíveis. Elas enfrentam em sequência desafios pouco compreendidos, como vender para o consumidor recém-elevado à classe C, construir uma imagem de respeitadora do meio ambiente ou negociar com fornecedores chineses. "Nenhuma companhia, hoje, tem gente sobrando, esperando trabalho. Precisamos atender rapidamente às mudanças", afirma Maurício Rossi, diretor de recursos humanos da Roche Diagnósticos. Mostrar versatilidade foi fundamental para que Silvia Hioka, estudante de engenharia na FEI, fosse contratada pela empresa. "Mostrei conhecimento de equipamentos, operações, tecnologia e também que gosto da área financeira", diz.

Parece muita coisa para uma jovem de 24 anos, mas Silvia provavelmente não teria sido selecionada se mostrasse só qualificação técnica. A pesquisa confirmou a preocupação das empresas de encontrar a tal "atitude correta", que envolveria uma combinação rara, principalmente entre jovens, de ambição e garra, mas também disposição para aprender e esperar. Entre 20 características que eles precisariam melhorar, destacou-se "habilidade social". "Os graduandos têm habilidades sociais. A questão é se eles têm as habilidades sociais certas. Muitos recrutadores acham que não", diz Caroline Dépierre, diretora de pesquisa da Trendence.

Passar no processo de seleção de uma grande empresa tem seus macetes. O candidato precisa dizer o que a empresa vai gostar de ouvir, por meio do currículo, da conversa e da atitude. Nesse discurso, ele tem de incluir o que a companhia precisa e procura e também aquilo que a companhia quer que o mercado pense que ela precisa e procura. A consultoria alemã Trendence acaba de produzir um interessante mapa desse percurso tortuoso.

A Trendence é especializada em carreira e estuda há 10 anos o universo dos recém-formados. Tem clientes como o Deutsche Bank, a Siemens e a Ikea. No fim de 2010, eles fizeram, pela primeira vez, uma pesquisa em 20 países (incluindo o Brasil), colhendo opiniões de recrutadores e selecionadores de grandes companhias responsáveis por lidar com recém-saídos da universidade. O resultado, dividido em vários tópicos, ajuda profissionais em qualquer etapa da carreira. A eles:

-       EXPERIÊNCIA – na média dos 20 países, a informação mais valiosa no currículo do recém-formado é a experiência profissional adquirida pelo candidato durante a faculdade, considerada muito mais relevante que a área de especialização, a instituição em que o candidato se formou, o desempenho acadêmico e outras atividades desenvolvidas. A exigência de experiência foi especialmente forte no Brasil, na China e no México, um trio de grandes países em desenvolvimento, e também na França, na Austrália e na Alemanha. Os Estados Unidos ficaram na média global e o Japão foi a exceção, dando menos importância a esse quesito. Pode parecer injusto fazer essa cobrança de recém-formados, mas ninguém disse que o mercado é justo. Para atender a esse tipo de demanda, contam estágios, mas também empregos quebra-galho, projetos científicos e tecnológicos e outras experiências de que se possa extrair lições (convincentes e bem contadas no processo de seleção) sobre atuar em equipe, coordenar, ser coordenado, negociar, lidar com prazos, pressão, estresse e padrões de qualidade;

- OUTRAS ATIVIDADES DESENVOLVIDAS – alguns recrutadores no Brasil gostam de dizer que se importam com hobbies, participação em associações e outras atividades dos candidatos que indiquem traços de criatividade e personalidade. Está na moda. Mas ao responder anonimamente à pesquisa, praticamente ignoraram o tema.  Essas atividades extras foram desprezadas no Brasil e em Itália, Espanha, Índia, África do Sul e Turquia (um grupo com alguma homogeneidade). Os EUA ficaram num meio-termo. Elas são consideradas muito relevantes apenas num outro grupo homogêneo, de países muito desenvolvidos: Japão, Bélgica, Holanda e Suécia. Trabalho voluntário pode até entrar no primeiro tópico, de experiência profissional, dependendo de como for apresentado. Mas há motivos mais nobres para o voluntariado do que impressionar entrevistador.


TWPhoto/Corbis/Latin Stock, Stuart Freedman/In Pictures/Corbis e Blue Images/Corbis

Fonte: Época

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