19/06/2010

WORLD CUP...

Há três anos, uma comitiva da Fifa, a Federação Internacional de Futebol, visitou os estádios selecionados pelos sul-africanos, alguns em bairros pobres.  A comitiva estava mais interessada nos  bilhões de espectadores que não querem ver favelas e pobreza pela televisão.  O então presidente Thabo Mbeki disse que a Fifa tinha o direito de exigir o mais alto padrão possível;  e a África do Sul deveria ter o bom-senso de seguir a indicação.  Anunciou-se a construção de um novo estádio, com 68 mil lugares, num dos bairros mais ricos da Cidade do Cabo.

Fundada em 1904, a Fédération Internationale de Football Association tem uma estrutura pequena. Na sede da entidade, em Zurique, na Suíça, trabalham 310 funcionários. Nos 208 países que a integram, pouco mais de mil pessoas estão na sua folha de pagamentos. Já na onu, com 192 nações filiadas, trabalham mais de 40 mil pessoas. A burocracia enxuta é replicada pelas seis confederações regionais que estão sob sua égide. A que reúne as seleções das Américas do Norte e Central e o Caribe tem quarenta funcionários. E a Confederação Brasileira de Futebol ocupa apenas um andar na Barra da Tijuca, no Rio, onde trabalham cinquenta pessoas.

Ainda assim, como escreveu o escritor uruguaio Eduardo Galeano, "a Fifa é o fmi do futebol". Poucas instituições internacionais são tão poderosas, ricas e fechadas quanto a que organiza os campeonatos de futebol mundo afora. Ela é responsável pela comercialização de qualquer produto ligado ao futebol profissional, patrocínios e direitos televisivos. Está no centro de um mercado que movimenta 250 bilhões de dólares anualmente. No ano passado, faturou 1 bilhão de dólares com um lucro líquido de quase 200 milhões de dólares. Só com a Copa da África do Sul, ganhou 3,8 bilhões de dólares.

Os 24 membros do comitê executivo da entidade gastam seu tempo viajando pelo mundo, inspecionando estádios e times, negociando com Estados e multinacionais, articulando alianças com lideranças locais e nacionais. Além de hotéis cinco estrelas, passagens de primeira classe, Mercedes pretas com motoristas, eles têm despesas autorizadas de até 500 euros diários. Avalia-se que recebam honorários próximos de 50 mil dólares, enquanto o salário do secretário-geral chegaria ao dobro. Os ganhos e despesas do presidente da Fifa nunca foram divulgados. A renovação no comitê é baixíssima. A maioria dos cartolas está no cargo há pelo menos quinze anos.

Um país que queira sediar a Copa do Mundo tem que aceitar todas as exigências listadas no chamado "Cadernos de Encargos" da Fifa. Se necessário, a legislação nacional é modificada. O Caderno especifica o tamanho dos estádios e das suas cadeiras, o tempo em que deve ser esvaziado em caso de emergência, a quantidade de banheiros, o número de minutos que se leva para ir dos centros de imprensa aos estádios, a dimensão das salas para acolher 14 500 convidados vip e vvip (chefes de Estado, de governo e celebridades) e até a intensidade da luz em caso de apagão.

Também obriga o anfitrião a conceder vistos de trabalho ao pessoal estrangeiro (mesmo que não haja acordos diplomáticos entre os dois países), dar isenção de taxas alfandegárias para todo o material relacionado ao evento, garantir a livre transferência de divisas e bancar a infraestrutura necessária para transportes e telecomunicações.

O Parlamento da África do Sul concedeu à Copa, em 2006, o status de "evento protegido" por uma legislação específica. No Brasil, as negociações para aprovar uma lei fiscal e uma geral que regulamentarão o mundial de 2014 já estão em negociação entre a Presidência da República, o Ministério do Esporte e a Fifa.

Um dos problemas à vista é a venda de bebidas alcoólicas nos estádios e em áreas de seu entorno, o que é proibido no Brasil, mas que é capital durante os jogos da Copa: a Budweiser e a AmBev estão entre os maiores patrocinadores. "Isso será discutido mais para frente", disse o advogado Francisco Müssnich em um café da manhã, no Rio. "Durante a Copa, não há briga de torcida nem confusão como em jogos de campeonatos nacionais, o que motivou a proibição da venda de bebida no estádio." Müssnich é responsável por toda a parte jurídica do Comitê Organizador no Brasil.

A Federação também exige que o país-sede assine um termo reconhecendo o direito exclusivo da entidade para a exploração comercial dos jogos, o que inclui publicidade, marketing, licenciamento, direitos de transmissão e até o controle das vizinhanças dos estádios. A Fifa tem soberania no raio de um quilômetro em volta do local dos jogos. Nesse perímetro, até a circulação de cachorros é controlada pela entidade. Ali, só podem ser comercializados serviços e mercadorias dos patrocinadores oficiais. E um percentual de tudo o que vendem vai automaticamente para os cofres da Fifa.

Se um bar ou restaurante quiser exibir os jogos da Copa em televisões ou telões, terá que pagar direitos autorais à emissora que os transmite, a qual destina uma parte deles à Federação. Pagará também diretamente à Fifa uma licença de venda de bebida alcoólica. Na África do Sul, pela mesma lei, um camelô que mencione a expressão "Copa do Mundo" ou até "2010" na hora de vender seus cacarecos corre o risco de ser preso pela polícia.

Apesar das entradas financeiras milionárias, a Federação é considerada, legalmente, uma entidade sem fins lucrativos. Seus gastos se resumem à organização de campeonatos, viagens de cartolas, repasses para times e confederações e prêmios para jogadores e seleções. Ela distribuirá nesse ano 420 milhões de dólares em prêmios e ajuda aos 32 times do mundial. É quase o dobro pago na Copa da Alemanha, em 2006. A seleção campeã ganhará 30 milhões de dólares; a vice, 24 milhões.

Para a Copa do Mundo de 2014, no Brasil, o comitê organizador local receberá um aporte de 100 milhões de dólares. Caberá ao comitê, em associação com os administradores locais (clubes, governadores e prefeitos), iniciar obras de infraestrutura nas cidades-sede e de reforma de estádios.

A Fifa nunca perde dinheiro. Mesmo que o evento seja um fracasso, não há prejuízo. Ela sempre faz um seguro para se garantir contra qualquer eventualidade. Para as Copas de 2010 e 2014, bateu o recorde: 650 milhões de dólares de cobertura para o caso de algo sair errado.

Nas últimas décadas, as grandes competições esportivas passaram a ser vistas como uma oportunidade de recuperação de cidades. Haveria, de um lado, o aspecto material: a obrigação de organizar o torneio num período determinado e curto levaria os políticos locais a planejar a intervenção urbana, de modo a bem aproveitar os investimentos externos e internos, aumentar o turismo e gerar empregos.

De outro, existiria o aspecto imaterial: durante os dias de campeonato, a cidade ou país teriam a imagem difundida para uma plateia globalizada, o que supostamente aumentaria a chamada autoestima da população local e, numa suposição mais tênue ainda, atrairia mais investimento e turistas no futuro.

Na carta de intenções enviada à Fifa pleiteando a candidatura sul-africana, o presidente Thabo Mbeki escreveu que a aprovação do país significava o "renascimento africano". Argumentou que os jogos trariam crescimento econômico e orgulho nacional, deixando para trás "séculos de conflitos e pobreza". O arcebispo emérito Desmond Tutu disse que o mundial teria um impacto tão forte para os negros da África do Sul quanto a eleição de Barack Obama nos Estados Unidos. Uma estatística recente mostrou que 74% da população acredita que a Copa do Mundo trará benefícios sociais e econômicos. 

Os textos mostram que as previsões costumam ser totalmente desmentidas pelos fatos. Os estudiosos sustentam que os países-sede têm de arcar com os prejuízos e com a manutenção de obras, mas elas quase nunca são reaproveitadas depois que a festa acaba. É praticamente impossível, dizem, recuperar os investimentos feitos para preparar o campeonato.

No aspecto imaterial, as perspectivas são melhores. Os dezoito ensaios afirmam que os maiores legados para as nações que organizam megaeventos esportivos são a exposição midiática, a melhoria na imagem internacional e o aumento da autoestima popular. As três heranças seriam maiores nos países em desenvolvimento. Seria o caso da China, que investiu 38 bilhões de dólares na Olimpíada de 2008 e conseguiu com que os jogos solidificassem, em todo o planeta, a nova imagem do país: capitalista, pujante, organizado e ditatorial.

Outro estudo, feito pelos americanos Robert Baade e Victor Matheson, do Lake Forest College, em Illinois, comparou o crescimento econômico, entre 1970 e 2000, de treze cidades que sediaram copas. Chegaram à conclusão que o desenvolvimento acompanhou as oscilações da economia mundial no período.

Em 2002, a Fifa previu que um milhão de turistas desembarcaria no Japão e na Coreia do Sul para assistir aos jogos da Copa, que foram divididos entre os dois países. O Japão atraiu 30 mil turistas a mais e a Coreia do Sul registrou o mesmo número de visitantes do ano anterior. A maioria dos estádios construídos continua sem uso. Em 2007, os gastos da União, estado e do município do Rio de Janeiro nos Jogos Pan-Americanos foram calculados em 409 milhões de reais, mas o evento custou 3,7 bilhões. O número de turistas foi o mesmo de anos anteriores e o Pan deixou como herança dois elefantes brancos, o Velódromo da Barra e o Parque Aquático Maria Lenk. O Brasil e o Rio desperdiçaram dinheiro com os Jogos. Só ganharam os espertalhões de sempre: políticos, atravessadores, empreiteiros.

Mesmo entre os países que dizem ter faturado com o mundial, há controvérsias em torno das estatísticas. Na Copa do Mundo de 2006, a Alemanha investiu 5 bilhões de dólares e, ao final da temporada, anunciou um ganho de 170 milhões. Boa parte do dinheiro, contudo, resultou apenas na transferência de investimentos e lucros de um setor para outro da economia. Seria o caso de um alemão de Hamburgo que, em vez de ir ao cinema ou a um restaurante na sua cidade, foi assistir a uma partida em Berlim.

Quando se compara o total de dinheiro que entrou na Alemanha, via turistas estrangeiros, com o que foi gasto na organização, a Copa teria dado prejuízo. Isto porque o número de visitantes do exterior permaneceu o mesmo entre 2000 e 2007. Quem de fato lucrou foram setores de pouco peso na economia alemã, como cervejarias, casas de câmbio, companhias aéreas regionais e fabricantes dos produtos licenciados para a Copa.

O maior ganho foi, novamente, intangível: a impressão geral deixada pelo povo alemão, que se mostrou acolhedor e hospitaleiro, serviu para exorcizar resquícios da imagem autoritária associada ao nazismo. Foi um efeito equiparável ao das Olimpíadas de Tóquio, de 1964, quando os jogos serviram para mostrar ao mundo um Japão oposto ao da Segunda Guerra Mundial: aberto ao exterior, moderno, uma potência tecnológica, mas pacífica.

Os Jogos Olímpicos de Barcelona, em 1992, são considerados o grande exemplo de um evento esportivo bem-sucedido, tanto no aspecto material como imaterial. Barcelona recebeu uma injeção de 6 bilhões de dólares em investimentos que mudaram a fisionomia da cidade.

O transporte urbano, sobretudo a circulação de carros, foi completamente alterado, o metrô foi ampliado e modernizado, a construção da Vila Olímpica levou moradores para perto do mar. Tudo isso fez com que a cidade passasse por uma revitalização urbana e um crescimento econômico acelerados, opostos ao que ocorria no resto da Espanha e na Europa. Barcelona tomou o lugar de Madri como metrópole da península ibérica e aprofundou sua vocação turística.

Mas persiste a dúvida se a cidade poderia ter feito o mesmo sem o pretexto dos Jogos Olímpicos.
 
Fonte: R. Piauí

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