29/10/2010

Por que alguns vestibulandos sofrem da chamada "setembrite"?

Setembrite é a inflamação mental que um aluno tem quando percebe que está entrando na reta final dos estudos preparatórios para os exames escolares de final de ano, principalmente os vestibulares.

Esta inflamação pode evoluir para uma doença que é a realização mental de que vai ser impossível conseguir se preparar adequadamente porque não há mais o tempo suficiente para estudar tudo o que precisa. Mas pode também evoluir para se reorganizar nos estudos, adotando o esquema de entrar no clima de reta final.

Em geral, estes vestibulandos são os que sempre deixaram para estudar tudo na véspera da prova, conforme seu hábito de procrastinar, que aparece também em suas outras atividades. A mente do procrastinador funciona diferente da média das pessoas e o oposto das pessoas previdentes, que não deixam nada para a última hora. Vestibulandos há de todos os tipos, mas são os procrastinadores os que mais tumultuam a vida dos outros.

Um filho mantém a sua procrastinação e folga porque sempre os seus pais e outros à sua volta conseguiram ajudá-lo de última hora. Com esta ajuda, ele aprende que não vale a pena esforçar-se e ser previdente, pois mesmo sem nada fazer consegue os mesmos resultados. Para os folgados o nada fazer já é um lucro, enquanto para o previdente o lucro está no deixar pronto para não ter que correr de última hora. Assim, o folgado não muda o seu comportamento enquanto estiver recebendo lucros: pelo contrário, acostuma-se a receber pronto, sem se incomodar com o esforço despendido pelos sufocados, e começa a sentir que tem direito de ser folgado. "Se nunca fiz, por que teria que fazer agora?", pergunta-se ele.

Um ditado caipira diz que os donos podem arrastar o burro até a água, mas quem bebe é ele. Ninguém pode beber água por ele. Assim também o filho se depara com a verdade que nunca precisou ver: quem tem que estudar é ele e que ninguém pode estudar por ele!

Setembrite é quando o filho descobre que o maior responsável pela vida dele é ele mesmo e não os seus pais nem os professores. Nas provas aprovativas, ele sempre conseguiu ser ajudado, isto é, os pais, os professores, a sociedade beberam água por ele. Enquanto pudermos acreditar que o vestibular é uma prova competitiva séria, quem tem de beber água é o vestibulando. É ele que vai ter que estudar, mesmo que os pais sejam os que pagam a conta do prejuízo que ele provoca ao não entrar em uma faculdade decente.

O que os pais podem fazer por ele é limpar o caminho até a água, isto é, facilitar a sua vida, poupando-lhe os esforços diários para se dedicar mais tempo a recuperar o atraso, como, por exemplo, levá-lo para onde ele precisar ir; deixar o local de estudos o mais em ordem possível, sem elementos que lhe roubem a atenção; preparando refeições balanceadas; aconselhando o jovem a ter um sono recuperador etc. Talvez tenham que limitar focos de distrações que lhe tiram um precioso tempo, tais como internet, sites de relacionamentos, baladas, uso de bebida, maconha (ou qualquer outra droga, mesmo medicações que o estimulem a estudar porque estas desgastam a mente e com o tempo tornam-se prejudiciais por tirarem o poder de concentração e apresentar distúrbios comportamentais).

O vestibular é uma das poucas oportunidades que todos os brasileiros têm para se por à prova em igualdade de condições, onde o que vale é a meritocracia. Uma meritocracia que é medida pelo número de pontos conseguidos, e não por vantagens advindas de malandragens, estudos de última hora, simpatias, promessas não cumpridas. Portanto é também uma oportunidade aos pais verificarem se realmente o filho tem o valor que eles sempre lhe dedicaram.


Palestra ministrada pelo médico psiquiatra Dr. Içami Tiba, em Curitiba, 23/07/08.

 

O palestrante é membro eleito do Board of Directors of the International Association of Group

Psychotherapy. Conselheiro do Instituto Nacional de Capacitação e Educação para o Trabalho 

"Via de Acesso".

 

1. A educação não pode ser delegada à escola. Aluno é transitório. Filho é para sempre.

2. O quarto não é lugar para fazer criança cumprir castigo.Não se pode castigar com internet, som, tv, etc...

3. Educar significa punir as condutas derivadas de um comportamento errôneo. Queimou índio pataxó, a pena (condenação judicial) deve ser passar o dia todo em hospital de queimados.

4. É preciso confrontar o que o filho conta com a verdade real. Se falar que professor o xingou, tem que ir até a escola e ouvir o outro lado, além das testemunhas.

5. Informação é diferente de conhecimento. O ato de conhecer vem após o ato de ser informado de alguma coisa. Não são todos que conhecem. Conhecer camisinha e não usar significa que não se tem o conhecimento da prevenção que a camisinha proporciona.

6. A autoridade deve ser compartilhada entre os pais. Ambos devem mandar. Não podem sucumbir aos desejos da criança. Criança não quer comer? A mãe não pode alimentá-la. A criança deve aguardar até a próxima refeição que a família fará. A criança não pode alterar as regras da casa. A mãe NÃO PODE interferir nas regras ditadas pelo pai (e nas punições também) e vice-versa. Se o pai determinar que não haverá um passeio, a mãe não pode interferir. Tem que respeitar sob pena de criar um delinquente.

7. Em casa que tem comida, criança não morre de fome . Se ela quiser comer, saberá a hora. E é o adulto quem tem que dizer QUAL É A HORA de se comer e o que comer.

8. A criança deve ser capaz de explicar aos pais a matéria que estudou e na qual será testada. Não pode simplesmente repetir, decorado. Tem que entender.

9. É preciso transmitir aos filhos a ideia de que temos de produzir o máximo que podemos. Isto porque na vida não podemos aceitar a média exigida pelo colégio: não podemos dar 70% de nós, ou seja, não podemos tirar 7,0.

10. As drogas e a gravidez indesejada estão em alta porque os adolescentes estão em busca de prazer. E o prazer é inconsequente.

11. A gravidez é um sucesso biológico e um fracasso sob o ponto de vista sexual.

12. Maconha não produz efeito só quando é utilizada. Quem está são, mas é dependente, agride a mãe para poder sair de casa, para fazer uso da droga . A mãe deve, então, virar as costas e não aceitar as agressões.

Não pode ficar discutindo e tentando dissuadi-lo da idéia. Tem que dizer que não conversará com ele e pronto. Deve 'abandoná-lo'.

13. A mãe é incompetente para 'abandonar' o filho. Se soubesse fazê-lo, o filho a respeitaria. Como sabe que a mãe está sempre ali, não a respeita.

14. Se o pai ficar nervoso porque o filho aprontou alguma coisa, não deve alterar a voz. Deve dizer que está nervoso e, por isso, não quer discussão até ficar calmo. A calmaria, deve o pai dizer, virá em 2, 3, 4 dias. Enquanto isso, o videogame, as saídas, a balada, ficarão suspensas, até ele se acalmar e aplicar o devido castigo.

15. Se o filho não aprendeu ganhando, tem que aprender perdendo.

16. Não pode prometer presente pelo sucesso que é sua obrigação. Tirar nota boa é obrigação. Não xingar avós é obrigação. Ser polido é obrigação. Passar no vestibular é obrigação. Se ganhou o carro após o vestibular, ele o perderá se for mal na faculdade.

17. Quem educa filho é pai e mãe. Avós não podem interferir na educação do neto, de maneira alguma. Jamais. Não é cabível palpite. Nunca.

18. Muitas são desequilibradas ou mesmo loucas. Devem ser tratadas. (palavras dele).

19. Se a mãe engolir sapos do filho, ele pensará que a sociedade terá que engolir também.

20. Videogames são um perigo: os pais têm que explicar como é a realidade, mostrar que na vida real não existem 'vidas', e sim uma única vida. Não dá para morrer e reencarnar. Não dá para apostar tudo, apertar o botão e zerar a dívida.

21. Professor tem que ser líder. Inspirar liderança. Não pode apenas bater cartão.

22. Pais e mães não pode se valer do filho por uma inabilidade que eles tenham. 'Filho, digite isso aqui pra mim porque não sei lidar com o computador'. Pais têm que saber usar o Skype, pois no mundo em que a ligação é gratuita pelo Skype, é inconcebível pagarem para falar com o filho que mora longe. 

23. O erro mais frequente na educação do filho é colocá-lo no topo da casa. O filho não pode ser a razão de viver de um casal. O filho é um dos elementos. O casal tem que deixá-lo, no máximo, no mesmo nível que eles. A sociedade pagará o preço quando alguém é educado achando-se o centro do universo.

24. Filhos drogados são aqueles que sempre estiveram no topo da família.

25. Cair na conversa do filho é criar um marginal. Filho não pode dar palpite em coisa de adulto. Se ele quiser opinar sobre qual deve ser a geladeira, terá que mostrar qual é o consumo (KWh) da que ele indicar.

Se quiser dizer como deve ser a nova casa, tem que dizer quanto isso (seus supostos luxos) incrementará o gasto final.

26. Dinheiro 'a rodo' para o filho é prejudicial. Mesmo que os pais o tenham, precisam controlar e ensinar a gastar.

Por Içami Tiba

Içami Tiba é psiquiatra e educador. 

Escreveu "Família de Alta Performance", "Quem Ama, Educa!" 

e mais 26 livros.

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