19/12/2010

Conto de Natal.



Que o universo conspire para que seus desejos se realizem em 2011.










O pinheiro de St. Martin
Na véspera de Natal, o padre da igreja no pequeno vilarejo de St. Martin, 
nos Pirineus franceses, se preparava para celebrar a missa, quando 
começou a sentir um perfume delicioso. Era inverno, há muito as flores 
tinham desaparecido - mas ali estava aquele aroma agradável, como 
se a primavera  tivesse surgido fora de tempo. 

Intrigado, ele saiu da igreja para buscar a origem de tal maravilha, e foi 
dar com um rapaz sentado na frente da porta da escola. Ao seu lado, 
estava uma espécie de Árvore de Natal dourada. 

- Mas que beleza de Árvore! - disse o pároco. - Ela parece ter tocado 
o céu, já que irradia uma essência divina! E é feita de ouro puro! 
Onde foi que a conseguiu? 

O jovem não demonstrou muita alegria com o comentário do padre. 

- Na verdade, isso que carrego comigo foi ficando cada vez mais 
pesado e à medida que eu andava, suas folhas ficaram duras. 
Mas não pode ser ouro, e estou com medo da reação de meus pais. 

O rapaz contou sua história: 

- Tinha saído hoje de manhã para ir até a cidade de Tarbes, 
com o dinheiro que minha mãe havia me dado para comprar 
uma bela Árvore de Natal. Acontece que, ao cruzar um povoado, 
vi uma senhora de idade, solitária, sem nenhuma família com quem 
comemorar a grande festa da Cristandade. 
Dei-lhe algum dinheiro para a ceia, pois estava certo que poderia 
conseguir um desconto na minha compra. 

"Ao chegar em Tarbes, passei diante da grande prisão, e havia uma 
série de pessoas aguardando a hora da visita. Todas estavam tristes, 
já que passariam a noite longe de seus entes queridos. Escutei algumas 
delas comentando que sequer tinham conseguido comprar um pedaço 
de torta. Na mesma hora, movido pelo romantismo de gente da minha 
idade, decidi que iria dividir meu dinheiro com aquelas pessoas, que 
estavam precisando mais que eu. Guardaria apenas uma ínfima quantia 
para o almoço; o florista é amigo de nossa família, com certeza me daria 
a Árvore, e eu poderia trabalhar para ele na semana seguinte, pagando 
assim a minha dívida". 

"Entretanto, ao chegar ao mercado, soube que o florista que conhecia 
não tinha ido trabalhar. Tentei de todas as maneiras conseguir alguém 
que me emprestasse dinheiro para comprar a Árvore em outro lugar, 
mas foi em vão". 

"Convenci a mim mesmo que conseguiria pensar melhor o que fazer 
se estivesse com o estômago cheio. Quando me aproximei de um bar, 
um menino que parecia estrangeiro, perguntou se eu podia lhe dar 
alguma moeda, já que não comia há dois dias. Como imaginei que 
certa vez o menino Jesus deva ter passado fome, entreguei-lhe o 
pouco dinheiro que me sobrava, e voltei para casa. No caminho 
de volta, quebrei um galho de um pinheiro; tentei ajeitá-lo, cortá-lo,
 mas ele foi ficando duro como se feito de metal, e está longe de 
ser a Árvore de Natal que minha mãe espera". 

- Meu caro - disse o padre - o perfume desta Árvore não deixa 
dívidas de que ela foi tocada pelos Céus. Deixe-me contar o resto 
desta sua história: 

"Assim que você deixou a senhora, ela imediatamente pediu à 
Virgem Maria, uma mãe como ela, que lhe devolvesse esta 
benção inesperada. Os parentes dos presos se convenceram 
que tinham encontrado um anjo, e rezaram agradecendo aos 
anjos pelas tortas que foram compradas. O menino que 
você encontrou, agradeceu a Jesus por ter sua fome saciada". 

"A Virgem, os anjos, e Jesus escutaram a prece daqueles que tinham 
sido ajudados. Quando você quebrou o galho do pinheiro, a Virgem 
colocou nele o perfume da misericórdia. À medida que você 
caminhava, os anjos iam tocando suas folhas, e as transformando 
em ouro. Finalmente, quando tudo ficou pronto, Jesus olhou o trabalho, 
abençoou-o, e a partir de agora, quem tocar esta Árvore de Natal, 
terá seus pecados perdoados e seus desejos atendidos". 

E assim foi. Conta a lenda que o pinheiro sagrado ainda se encontra 
em St. Martin; mas sua força é tão grande que, todos aqueles que 
ajudam seu próximo na véspera de Natal, não importa quão longe 
estejam do pequeno vilarejo dos Pirineus, são abençoados por ele.


(inspirado em uma história hassádica)
Paulo Coelho 

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