- Alô! Fala rápido que tô no avião, essa ligação é uma fortuna. Não, não é importante. Te ligo quando pousar.
O toque de celular foi atendido por um senhor na terceira fileira do voo da TAM, na manhã de uma segunda-feira recente. O passageiro sentado na fileira imediatamente à frente acionou a comissária de bordo e, discreto, perguntou se o uso do celular era permitido naquele voo, que fazia o curto trajeto Congonhas–Santos Dumont.
Sim, esclareceu a funcionária. Aquele Airbus 319 era uma das sete aeronaves da companhia em que o celular estava liberado para ser utilizado a bordo por até oito passageiros ao mesmo tempo. Não só liberado como incentivado. No bolso da poltrona em frente, junto às revistas, havia um encarte anunciando as vantagens da "Conectividade, agora também a bordo". A tabela de tarifas – cerca de 9,40 reais o minuto, dependendo da operadora – esfriava um pouco o frisson geral.
Mesmo assim, a aquiescência da comissária para o uso do celular espalhou-se cabine adentro e teve o efeito de uma alforria. Em questão de minutos, iPhones, iPads e BlackBerries foram empunhados como troféus e só então os passageiros repararam que havia também adesivos autorizando o uso de smartphones, colados na mesinha dobrável e no painel luminoso acima das poltronas.
O serviço OnAir oferecido no Brasil existe em apenas sete aviões da TAM: seis A319 concentrados em algumas rotas, cobrindo parte da malha nacional.
Era o que faltava para o relativo silêncio a bordo tornar-se mais uma lembrança em extinção.
Para o dependente desse cordão umbilical sem fio, celular mudo equivale ao cigarro apagado em mãos de um fumante desesperado. Coube a Emirates Arline, de Dubai, utilizando tecnologia da empresa AeroMobile, a primazia em autorizar chamadas quando a aeronave ultrapassava os 20 mil pés de altitude. A partir daí, a demanda tomou conta dos ares.
O susto do usuário com o alto preço da ligação se explica pela complexa infraestrutura de satélites e cabos que norteiam as chamadas. A antena instalada na fuselagem e que capta o sinal de telefonia e internet de um dos satélites, o repassa a um provedor localizado em Mônaco. É este provedor que faz a ponte com o telefone discado pelo passageiro em voo.
Os próprios órgãos internacionais de tráfego aéreo retiraram do passageiro chegado a uma quietude o argumento mais forte para manter a cabine livre dos grilos falantes: a segurança dos passageiros. A Agência Federal de Aviação Civil dos Estados Unidos jamais chegou a uma conclusão definitiva quanto ao perigo real do uso do celular a bordo."Não há evidência para afirmar que esses aparelhos não possam interferir nas comunicações de uma aeronave, assim como não há evidência em sentido contrário", resume, cripticamente, o porta-voz da agência, Les Dorr. Até hoje, nenhum acidente aéreo teve como causa comprovada a interferência de um celular usado a bordo.
A proibição tende a ser, essencialmente, uma precaução. "Todos os dias aparecem aparelhos novos com funções diferentes, e é praticamente impossível testar cada um deles para garantir que não interfeririam na comunicação. Como o início e o final de um voo são os momentos de maior troca de informações entre cabine e torre de comando, é apenas mais seguro proibir tudo", explica o professor Claudio Jorge Pinto Alves, do Instituto Tecnológico de Aeronáutica.
Nada impede, porém, que quando todos os aviões tiverem se transformado em pandemônios acústicos ocorra a alguma empresa aérea reinventar o silêncio. A matriz já existe: o vagão mais concorrido e exclusivo do trem que liga as cidades de Boston a Nova York proíbe o uso de celulares e conversas em tom alto. Leva o nome de "Quiet Car" (Compartimento Silencioso) e é considerado chiquérrimo.
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